Por: Benjamin Steinbruch

Folha de São Paulo – Mercado – p.8

Publicada 11/02/2014

Não se pode admitir que os próprios brasileiros ajudem a propagandear só o retrato da parte vazia do copo

Benjamim SteinbruchLuiza Trajano é uma empresária respeitada e admirada no país. Dias atrás, acusada em programa de televisão de ser otimista demais em relação ao Brasil, ela deu uma aula de bom-senso. Nós, brasileiros, disse ela, temos o hábito de olhar sempre a parte vazia do copo e nunca a cheia.

Há, sem dúvida, um tumulto generalizado no mercado internacional, nada favorável aos países emergentes, Brasil incluído. As causas são claras. A primeira é a redução do ritmo de compra de títulos da dívida americana pelo banco central dos EUA. A segunda, a desconfiança sobre a economia chinesa, vigoroso motor do crescimento global.

Nessas condições, houve fuga de investidores dos mercados emergentes. Essa debandada desvalorizou as moedas desses países, e vários bancos centrais elevaram os juros para protegê-las. O BC do Brasil foi o primeiro a fazer isso, e os efeitos do arrocho monetário já são sentidos na economia –a produção da indústria caiu 3,5% em dezembro.

Esses são os fatos. Não há como negá-los. Mas eles não obrigam o brasileiro a se engajar no coro catastrofista espalhado pelos mercados financeiros.

Não devemos olhar só o lado vazio do copo, o observador verá que o país apresentou, nos últimos três anos, um baixo crescimento médio anual do PIB, da ordem de 2%, nível inferior à média mundial. Isso preocupa, porque, para continuar emergindo, o país precisa crescer a taxas superiores às médias mundiais. E dados recentes, como o da indústria em dezembro, não são animadores.

Mas, ao olhar com cuidado a outra parte do copo, a cheia, verá que o país teve uma taxa média de desemprego bastante baixa em 2013, de 5,4% da população economicamente ativa –na zona do euro, a taxa foi 12%. Em dezembro, esse indicador estava em 4,6%, um dos mais baixos do mundo. Ou seja, apesar do lento crescimento, o país está longe de uma crise de emprego como a verificada na Europa.

Outro exemplo: o Brasil teve em janeiro deficit recorde na balança comercial, de US$ 4 bilhões. Foi mal, porque isso confirma uma constante perda de exportações do setor manufatureiro, cuja rentabilidade cresceu apenas 0,2% no ano passado, apesar da desvalorização cambial.

Mas esse também é o lado vazio do copo nas contas externas. O lado cheio mostra que o país não tem uma situação muito ruim nessa área. Acumula reservas de US$ 375 bilhões, suficientes para cobrir 18 meses de importações, uma medida de solvência muito superior à de outros emergentes –a Coreia do Sul tem oito meses; a Turquia, cinco meses; a Argentina, quatro; a África do Sul, 15 dias; e o México, hoje o queridinho do mercado, cinco meses.

Além disso, a entrada de inves- timentos diretos no Brasil atingiu US$ 63 bilhões em 2013 e, apesar da forte queda das ações, o fluxo de capital estrangeiro na Bolsa foi positivo em R$ 11 bilhões.

São frequentes as críticas à política fiscal brasileira, muitas corretas. Há gastos correntes excessivos e recursos reduzidos para investimentos. O superavit primário, feito para pagar juros da dívida, ficou muito abaixo do esperado no ano passado e, com isso, o deficit nominal dos governos atingiu 3,1% do PIB.

Aqui também se está olhando só a parte vazia do copo. A cheia mostra que o resultado de 3,1% é muito bom, melhor que o de EUA (4,1%), Japão (8,2%), Reino Unido (6,7%), Espanha (7,1%), França (4,1%), Itália (3,3%) e muitos outros países.

A inflação brasileira está elevada? Sim, está acima do centro da meta de 4,5% ao ano. E, para controlá-la, além de aumentar absurdamente os juros, o governo se rende à tentação de segurar alguns preços, como o dos combustíveis, com prejuízos para a Petrobras e seus investimentos. Mas aqui também se deve olhar a parte cheia do copo, porque a inflação, embora alta, nunca ultrapassou o teto da meta nos últimos dez anos.

Vários outros copos parcialmente cheios poderiam ser destacados, como o do crescimento real dos salários, da queda da inadimplência, da redução das desigualdades e do aumento do crédito.

Esses são os fatos. O tumulto no mercado internacional vai continuar e não dá para saber até quando. O que não se pode admitir é que os próprios brasileiros ajudem a propagandear só o retrato da parte vazia do copo. Bons brasileiros devem retratar e divulgar também a parte cheia.

bvictoria@psi.com.br

BENJAMIN STEINBRUCH, 60, empresário, é diretor-presidente da Companhia Siderúrgica Nacional, presidente do conselho de administração da empresa e primeiro vice-presidente da Fiesp. Escreve às terças-feiras, a cada 14 dias, nesta coluna.