Liderança de movimentos sociais explica o motivo do apoio a Dilma

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Dezenas de movimentos sociais urbanos e rurais do país discutem desde o ano passado o posicionamento frente às eleições presidenciais. Neste segundo turno, apesar de apontarem os limites do projeto neodesenvolvimentista dos governos do PT, decidiram de forma conjunta o apoio à candidata à reeleição, Dilma Roussef (PT). Nesta entrevista, João Pedro Stédile, da coordenação nacional do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e da Via Campesina, explica os motivos para o apoio, analisa o que pode significar para o país o retorno ao neoliberalismo e aponta como um segundo governo Dilma poderia avançar em mudanças.

Brasil de Fato – Este segundo turno se dá entre dois projetos: o neoliberalismo, representando na candidatura de Aécio Neves, e o neodesenvolvimentismo, na candidatura Dilma. O que significaria para o país o retorno ao neoliberalismo?

João Pedro Stédile – Se o Aécio ganhasse seria uma tragédia para a imensa maioria do povo. Na economia seria a hegemonia do capital financeiro, das empresas transnacionais e do agronegócio. Nas políticas sociais seria a volta da prática de que o mercado é que resolve, a volta do Estado mínimo, como foi nos governos de FHC e no governo Aécio em Minas. Viria assim uma desvalorização dos salários e das conquistas, além de um controle direto da direita no poder judiciário e na mídia, aumentando a repressão sobre os movimentos sociais. Na política externa, seria o realinhamento subordinado aos Estados Unidos e o desmantelamento do Mercosul, da Unasul e Celac. Nessas circunstâncias, se geraria um período de muitos confrontos, de muita instabilidade. Por isso não há menor dúvida, para defender os interesses da classe trabalhadora, é preciso derrotar a candidatura Aécio Neves.

Brasil de Fato – Há um desejo difuso por mudanças, do qual a candidatura do PSDB tem tentado se apropriar. Como um segundo governo de Dilma poderia abarcar essas mudanças?

João Pedro Stédile – O povo quer mudanças, mas mudanças para melhorar de vida. Mudanças para que o Estado assuma com maior determinação a solução dos problemas do povo. Nós temos ainda muitos desafios, como a universalização do acesso dos jovens à universidade. Os governos Lula e Dilma dobraram o acesso de 6 para 15% da população jovem, porém é preciso pensar nos outros 85%. Há ainda 8 milhões de déficit de moradias dignas. Falta reforma agrária, falta educação de qualidade e valorização dos professores do ensino médio. Queremos a redução da jornada de trabalho para 40 horas. E é preciso retomar a industrialização do país, única forma de aumentar os bens e criar mais empregos de qualidade.

Brasil de Fato – São feitas muitas críticas aos 12 anos do governo do PT, por não enfrentar reformas estruturais, inclusive a reforma agrária. Quais os principais limites desse projeto neodesenvolvimentista levado a cabo por Lula e Dilma?

João Pedro Stédile – Os principais limites do neodesenvolvimentismo é que ele era um programa para que todos ganhassem. Mas os bancos, as construtoras e o agronegócio foram os que mais ganharam. A dependência da economia ao capital internacional impediu que o governo tivesse forças para controlar a taxa de juros e a taxa de câmbio e fizesse uma reforma tributária para que as grandes fortunas e os ricos pagassem a conta. Um governo de composição de classes até pode dar certo eleitoral e politicamente, mas não consegue ter forças para fazer as reformas estruturais, nas quais as classes proprietárias percam parte de seus privilégios. E foi isso que aconteceu. Diante do impasse, parte da burguesia que antes estava no governo já caiu fora. Por isso, uma vitória de Dilma para um segundo mandato representaria uma nova coalizão de forças sociais, mais de centro-esquerda, que pode exigir mudanças que resolvam os problemas do povo.

Brasil de Fato – O Congresso eleito é ainda mais conservador que o anterior. O que isso significa para o avanço das pautas mais populares?

João Pedro Stédile – O novo Congresso foi resultado daquilo que chamamos de sequestro da democracia brasileira por 117 empresas, que gastaram R$ 4 bilhões para financiar seus candidatos e os elegeram. Daí a crise de representação de todos os partidos, pois agora os eleitos devem mais obrigação aos seus financiadores do que às siglas. O que aparece no Congresso é o espelho de uma crise política e ideológica maior, que afeta a atividade política e a democracia.

Brasil de Fato – Dilma sinalizou que apoia a convocação de uma Assembleia Constituinte para a reforma do sistema político. Como essa reforma pode melhorar a vida do povo?

João Pedro Stédile – É preciso colocar em primeiro lugar a reforma política que vai mexer em todo o sistema, e não apenas no financiamento das campanhas ou das listas de candidatos. Vai mexer também no Congresso, no judiciário e nos meios de comunicação. O caminho para isso é necessariamente uma assembleia constituinte, que teria que ser aprovada por meio de um plebiscito legal. Paralelamente, devemos incentivar, estimular e seguir colocando o máximo de energias na luta social. Porque somente conquistaremos a assembleia constituinte, somente conseguiremos implementar as reformas estruturais, se houver um novo período de reascenso do movimento de massas em todo o país. Portanto, teremos uma intensa luta política nos próximos quatro anos.

João Pedro Stédile

Fonte: Brasil de Fato