Roberto Amaral*

“Um império consiste na organização de um vasto território de Estados por um Estado mais poderoso, uma Metrópole que os submete e cujo objetivo é organizar a produção desses Estados em seu benefício e influir na ação política deles para defesa dos interesses imperiais. Não interessa ao Estado imperial, os EUA, aos grandes Estados desenvolvidos e mesmo aos menos desenvolvidos, nem aos Estados Adversários do Império – a China e a Rússia -, a emergência de uma nova Potência econômica, política e militar, cuja opinião teria de ser levada em conta e cuja ação afetaria seus interesses”.

Samuel Pinheiro Guimarães (O mundo ideal e o mundo real)

Celso Amorim, em síntese admirável, concentra em um adjetivo preciso as tantas qualificações de Samuel Pinheiro Guimarães, definindo-o como indispensável. Assim era o intelectual orgânico que precocemente nos deixa. Precocemente, porque os grandes construtores nos deixam sempre muito cedo, quase sempre quando mais precisamos deles. Como agora, quando, mal saídos do pesadelo protofascista, nos vemos em crise político-institucional que passa ao largo das antecipações e dos cuidados da chamada intelligentsia brasileira e promete aprofundar-se quando a estrutura partidária-ideológica se encontra em seu pior momento republicano, e o movimento sindical perde forças até em suas reivindicações econômicas e corporativas,  anunciando o que está por vir com a fragilização do trabalho nas relações de produção capitalista.

O cenário de hoje é um país em crise política, um governo popular ainda por ser e um mundo em turbulência econômica, política e ética (que dizer do genocídio dos povos do gueto de Gaza?) acicatado pela crise de hegemonia que enseja a multipolaridade de blocos e arranjos  de nações ameaçando o monopólio ocidental, abrindo espaços na política e no comércio e criando desafios para a resposta histórica dos tantos países da periferia capitalista, onde nos encontramos, após 500 anos do experimento reacionário da casa-grande.

As circunstâncias e as contingências, abertas pela emergência da Eurásia, impondo-nos desafios, criam condições para um reordenamento político-econômico, que, não sendo para já, parece inevitável nos médio e longo prazos. No panorama de hoje já se pode divisar o fortalecimento de nações periféricas, e a reafirmação dos conceitos de soberania e defesa nacional e regional. Esses são, justamente, alguns pontos da reflexão de Samuel, pensador e formulador militante, um dos mais notáveis num rol de meia dúzia de pensadores estratégicos com que contava a ciência política brasileira que se desenvolve fora dos cânones da academia. Samuel trabalhava esses temas em palestras e conferências Brasil afora, e a partir de seu refúgio brasiliense. Sua reflexão, sua análise da realidade, porém, não se findava na pura contemplação: conhecer a realidade era o ponto de partida de sua intervenção no mundo, visando a modificá-lo, em proveito da agenda social.

Filho da pequena-burguesia (o que lhe possibilitou acesso à cultura e à carreira diplomática, onde seria uma ave rara), cedo, ainda nos bancos acadêmicos, faria a opção pelo país (seu desenvolvimento soberano) e pelos trabalhadores, ou seja, a defesa dos interesses dos assalariados em geral e dos mais pobres, em país que ostenta uma das maiores concentrações de renda do mundo: hoje, o grupo, que representa 1% da população, apenas 1,5 milhão de pessoas, consome 28,3% da renda total, e os grandes  bancos, diz o Valor(26/01/2024), verão seu lucro crescer 30% no quarto semestre deste ano.  O povo passa fome, mas a especulação financeira está em festa.

Poucos como Samuel podem ser apresentados como intelectuais orgânicos, e poucos como ele tanto influíram na vida nacional, contribuindo para a alteração do statu quo que faz a alegria da classe dominante brasileira, alienada e forânea.

Este, o seu ofício de toda a vida: pensar, e fazer sua gente pensar o destino perdido. Buscar saída para o impasse foi seu desafio intelectual. Não se preocupava apenas em interpretar o mundo, missão que os filósofos esgotaram. Diante do mundo que descortina, Samuel se define e toma partido. Procura expressar a sociedade para si própria, e assim se empenha em desmitificar a fantasia liberal. Desfaz as aparência e revela a realidade brutal. Intelectual, personifica o engajamento. Intelectual de esquerda, luta pelas mudanças, combate a conciliação de classe, operada sempre pelo alto, a via prussiana que marca a história brasileira, desde suas raízes coloniais. Procura conhecer o mundo  olhando para o progresso social. Escreve como se cumprisse um dever moral. Político na melhor expressão do termo, pensador arguto, intérprete de nosso processo histórico, crítico da hegemonia de classe que limita nossos voos de permanente candidato a grande potência, utopia que a casa-grande, sobrevivente na Faria Lima, nos impede de sonhar. Continuamos em busca de nosso projeto: um país por ser, uma expectativa de realidade sempre postergada.

A produção de Samuel é vasta, profunda, cheia de vida, transpira brasilidade: espanca a falsa isenção dos liberais comprometidos com a conservação da ordem. É obra  pulsante, corajosa, e nela se destaca Quinhentos anos de periferia –– Uma contribuição ao estudo da política internacional (1999) que já nasceu clássico e seguirá nos apontando rumos para o Brasil justo e emancipado que ainda poderemos construir.

Sua preocupação com a história presente mostra-se de corpo inteiro em  Utopias: o Brasil depois da pandemia (2022).  Voltando-se para o processo eleitoral – que então se apresentava como decisivo para a trajetória democrática –,  indica os pontos centrais do que deveria ser o programa-mínimo (que acertadamente chama de “metas utópicas”) de um governo de restauração nacional, desejadamente de extração popular: “1. Aperfeiçoar a democracia para superar o sistema político oligárquico-plutocrático; 2. Acelerar o desenvolvimento e desconcentrar a renda para superar a relação colonial da dependência e 3. Promover a justiça social para vencer a barbárie”.
Esses desafios permanecem dramaticamente de pé, e em face deles resiste a classe dominante — tanto alienada quanto atrasada –, que há séculos vem renovando seu apego ao imobilismo político e à estratificação social. No contrapelo do desenvolvimento e da justiça social,  os herdeiros da casa grande investem na conservação da ordem bárbara, de onde deriva seu mando.
Diplomata, jamais se jungiu às conveniências da carreira, e foi dos primeiros brasileiros no governo FHC, que a patrocinava, a levantar-se contra a ALCA a erguer a voz contra a armadilha que os EUA tentavam nos impor. Uma vez firmado, o acordo proposto por George Bush ter-nos-ia transformado em colônia sem salvação. Mais do que ainda somos, condicionados pelo atraso da classe dominante brasileira, o grande capital e a tragédia geopolítica, que nos põe ao sul do grande império. Essa condição, aliás, esteve sempre presente no pensamento e na ação de Samuel, atuante nas origens do MERCOSUL, de que foi um dos formuladores, e em todas as movimentações visando, quando não a unidade do continente, que hoje nos parece muito distante, pelo menos à concertação de projetos de coordenação regional, como a Unasul e o IBAS.

Nos dois primeiros governos de Lula, constituiu, sob a liderança de Celso Amorim, e a contribuição de Marco Aurélio Garcia, que também nos deixou muito cedo, o esteio daquela bela política externa que o chancelar definiria (consagrando-a como tal) como “independente, ativa e altiva” renovando nossas esperanças de afirmação nacional, perdidas durante o mandarinato militar. Esperança que volta a despontar, após a degradação bolsonarista, com a reconstrução do Itamaraty e a presença de Celso na assessoria da Presidência da República.

Por isso estamos mais pobres, não só porque perdemos um amigo excepcional, mas um de nossos melhores quadros de políticos-pensadores.  Samuel, ademais de indispensável, é, no quadro de nossa pobreza contingente, um intelectual cuja substituição certamente cobrará a sucessão de várias gerações.

Não mais estaremos com ele, e não mais receberemos, os amigos mais próximos, os originais de suas reflexões e projetos de artigos que nos enviava à cata de sugestões, revelando sua postura de admirável  humildade intelectual.  Mas ficarão seus textos, ficará seu exemplo, ficará sua biografia, pois  a memória de um  grande homem é o rol de suas ações, como nos ensinou o Pe. Antônio Vieira: “Quando vos perguntarem quem sois, não vades revolver o nobiliário de vossos avós, ides ver a matrícula de vossas ações. O que fazeis, isso sois”. (Sermão da terceira dominga do advento).
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Horror na Bahia – A centro-esquerda brasileira carece de estratégia e de um projeto que possa apresentar ao povo. No governo, carece de um programa de governo. Na sua ausência, fala, por exemplo, em “melhorar a vida das pessoas”, proposição que se perde na extrema vagueza e discursa em defesa dos direitos humanos. Esses esboços de política, de todo modo, confluem para o objetivo de espancar o triste legado do governo protofascista.

Nesse contexto, porém, é espantoso e inaceitável que a Polícia Militar da Bahia, no quinto governo petista seguido, continue a se destacar por sua letalidade sanguinária, ceifando sobretudo, como reza a tradição, vidas de pobres, pretos e indígenas. Aliás, em vídeo, o cacique Nailton Muniz Pataxó acusa a PM de participação nos ataques contra a comunidade indígena pataxó Hã-Hã-Hãe, no sul da Bahia, no último 21 de janeiro, episódio em que sua irmã Maria de Fátima Muniz, a Nega Pataxó, foi assassinada. Os crimes não podem ficar impunes, e a matança precisa ser estancada.

* Com a colaboração de Pedro Amaral