Porque odiar todas as formas de totalitarismo e fascismo

O garoto da fotografia é considerado o preso mais jovem torturado na ditadura militar. Seu nome é Carlos Alexandre Azevedo, e, na época, tinha menos de dois anos de idade. Filha do jornalista Dermir Azevedo e da pedagoga Darcy Andozia Azevedo, essa criança foi submetida a choques elétricos, usada como instrumento para torturar psicologicamente sua mãe. Os miitares esperavam que Darcy revelasse informações sobre movimentos de esquerda. Em 2013, Alexandre cometeu suicídio; as sequelas das torturas nunca saíram da sua mente. Foi este o mesmo fim de Frei Tito, torturado pelo Delegado Fleury (DOPS de São Paulo e Operação Bandeirantes). Também suicidou-se. Esta é apenas uma história escabrosa dentre tantas. Os torturados e assassinados contam-se aos milhares, como lembram os casos mais conhecidos de Vladimir Herzog e Mário Alves. Meu amigo (muitas vezes pernoitou e se hospedou em minha casinha na Vila Isabel) morreu empalado (você sabe o que é isso?) numa cela da Polícia do Exército, na Barão de Mesquita, aqui no Rio. Minha amiga Rita foi, nua, pendurada num pau-de-arara (v. sabe o que é isso?) para forçar seu marido, meu amigo Oto, amarrado na ‘cadeira do dragão’, confessar o que não sabia. Jacob Gorender, outro amigo, tentou o suicídio ao sair de uma das ‘sessões de tortura’ no Dói-Codi em São Paulo. Eu poderia desfiar um interminável rol de casos. Não teria fim este bilhete. Deixo duas fontes para quem quiser (todos deveriam) se aprofundar no tema: o livro Tortura nunca mais e os Anais da Comissão da verdade (esses estão na Internet; se não me engano no site do Ministério da Justiça). Um dos campeões dentre os torturadores foi o coronel Brilhante Ulstra (um dos algozes da então jovem Dilma Rousseff) glorificado pelo capitão Bolsonaro quando de seu (do capitão) voto a favor do impeachment (Câmara dos Deputados, 17 de abril de 2016). Bolsonaro defende a tortura, claramente, sem rebuços ou tergiversações, e quem defende a tortura é torturador e quem vota em Bolsonaro está se associando à tortura, ou seja, é, eticamente, um torturador. De certa forma um torturador ainda mais covarde do que aquele que a pratica com as próprias mãos, pois se aproveita da miséria humana do outro. Eu quase sei o que é isso. Não cheguei a ser torturado fisicamente, como tantos amigos e amigas, e tantos desconhecidos, mas fui espancado nas dependências da Policia Federal no Rio e fui incontáveis vezes submetido à chamada ’tortura psicológica’ tanto em Fortaleza (Quartel da 10ª RM) quanto no Rio (DOPS). Como simples ser humano, tenho nojo do torturador, mas meu nojo não é menor pelos que defendem a tortura, e quem vota no capitão está defendendo a tortura. Trata-se de um torturador que, a fortiori, é responsável moralmente por todas as torturas conhecidas, as quais, com esse voto, está sancionando.

Rio, 6 de outubro de 2018

Roberto Amaral

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