Posfácio ao livro Alma em fogo – Memórias de um militante político, de Aldo Arantes

Editora Anita Garibaldi. SP. 2013

À guisa de Posfácio

Roberto Amaral

 “La modification plus ou moins lente des ‘conditions économiques’ place périodiquement la société devant la necessité  de modifier plus ou moins rapidement ses institutions. Ce changement ne se produit jamais ‘tout seul’: il exige toujours l’intervention des hommes auxquels des tâches immenses se trouvent ainsi incombées dans la société. On appelle grands hommes ceux qui sont plus aptes que les autres à venir à bout de ces tâches”. 

Georges Plékhanov. L’individu dans l’Histoire.*

 “O Brasil se interessa pouco pelo seu próprio passado. Essa atitude saudável exprime a vontade de escapar a uma maldição de atraso e miséria que o brasileiro evita lembrar. Contudo, é este o país que o brasileiro deve amar com a fé e a esperança porque este é o seu país tão precisado desse amor.”

Paulo Emílio Salles Gomes. Cinema: trajetória no subdesenvolvimento.

A leitura que acabo de fazer deste Alma em fogo, escrito com a alma em fogo, sugere-me algumas considerações sobre a importância da fonte documental, primária, o texto de primeira mão substituindo o depoimento de terceira via, a reprodução quase ipsis litteris do já escrito, do já lido e do já conhecido, a lamentável regra de nossa historiografia que só recentemente – como recente indico a pesquisa histórica da segunda metade do século passado – privilegia a peregrinação pelos arquivos disponíveis, quase sempre mal cuidados. Insiro como fonte primária as memórias (e não as biografias), os textos memoriais e mesmo a história oral, cujas deficiências podem muito bem ser corrigidas pela crítica dos comentaristas.

O exercício memorialístico, porém, nada obstante haver crescido no último século, não é tradição entre nossos homens de Estado e lideres políticos, embora, ainda no século XIX, Joaquim Nabuco nos tenha deixado Minha formação, obra seminal, escrita entre 1893-99, publicada inicialmente em fascículos pelo Correio de S. Paulo (1895) e a seguir pela Revista brasileira. Vem a lume pela primeira vez em forma de livro em 1900.

Apesar de sua vida longeva e rica, percorrendo a história do país desde os anos 20 do século passado até a última redemocratização (chegou a participar do movimento diretas-já e da campanha eleitoral de Lula em 1989), Luís Carlos Prestes não se sentiu no dever de contar a história de sua vida, que tanto se confunde com a história de nosso país nos seus bons momentos e nas suas muitas tragédias. No exílio voluntário do Itu, Getúlio Vargas preferiu a ociosidade enigmática.  Fazendeiro no Uruguai, Jango se absteve de depor para a História. E tanto ele quanto Brizola, outro silente, tinham muito o que contar.

Aos caudilhos o ditado de suas memórias parece soar como aceitação de um fim que simplesmente recusam.  Apesar de seu Depoimento (uma longa entrevista a O Estado de São Paulo), Carlos Lacerda terminou negando à História sua própria versão de sua vida e, com ela confundida, da direita brasileira.   Falecido aos 89 anos de idade, ator político de primeira linha desde os anos 50, Miguel Arraes rejeitou todos os apelos para deixar para os pósteros o legado de suas memórias – confundida, por seu turno, com batalhas da esquerda. A resistência às memórias deu lugar aos depoimentos ditados a jornalistas, e essa opção tem seu marco com O general Góis depõe, de Lourival Coutinho (1956). Mas o grande momento da história oral entre nós surge mediante as iniciativas do CPDOC da FGV-Rio, que, além de dar guarda àqueles que são talvez os últimos arquivos pessoais disponíveis, construiu  riquíssimo acervo de depoimentos, muitíssimos deles transformados em livros e assim tornados acessíveis ao grande público. Cito os depoimentos de Cordeiro de Farias, Evandro Lins e Silva e Ernesto Geisel (este confessando seu apreço pela tortura como método para obter delações).

Felizmente, se os avanços tecnológicos vão eliminando, pelo desuso, a base documental da História – a começar pelo acervo epistolar, fonte riquíssima da recomposição histórica – cresce, entre nós, principalmente após a ditadura militar, a consciência do dever do  depoimento de seus personagens, de suas vítimas, corajosamente a revelar, mais do que suas vidas, a dor, o sofrimento, a solidão, o cárcere, a tortura, o enclausuramento existencial, a ausência de saídas, a destruição traumática do sentido de tantas vidas e a busca heróica pelos antigos e novos valores que justificam o papel do homem na História, a história que os esbirros da ditadura tentaram esconder destruindo a documentação oficial.

Falharam até nisto, pois suas vitimas estão cumprindo com esse dever cívico.

Aldo Arantes, líder estudantil no final dos anos 50, presidente da União Nacional dos Estudantes-UNE (1961/62), dirigente da Juventude Universitária Católica-JUC (quando leu Emanuel Mounier, Teillard de Chardin e o Pe. Lebret) dirigente da Ação Popular-AP (ao lado de Betinho, de Vinicius Caldeira Brant, futuro presidente da UNE, Haroldo Lima, Sérgio Mota e José Serra), percorrerá, como um dos condutores do processo, o custoso caminho que levaria a AP, católica,  a transformar-se em Ação Popular Marxista-Leninista e, daí, para dissolver-se no Partido Comunista do Brasil, PCdoB, já sob a ditadura.  Da fase católica a influência  do notável Pe. Henrique de Lima Vaz. No governo Jango, concluído seu mandato de presidente da UNE, vai trabalhar, ao lado do Pe. Lage, em  um dos principais alvos da direita, a SUPRA (Superintendência da Política de Reforma Agrária), presidida por João Pinheiro Neto.  É neste posto que será alcançdo pelo golpe militar de 1964.

Consolidada a ruptura da ordem constitucional e instalada a ditadura militar, Aldo optaria pela resistência e a clandestinidade que o levariam ao cárcere e à tortura e a uma longa imersão no Brasil profundo e rural. Mas destaco que este texto, cuja leitura acabamos de concluir, não se encerra num simples arrolar de fatos vividos pelo memorialista. Narrando-os, Aldo os interpreta e termina completando suas memórias como um ensaio que percorre a transição por todos vivida desde os anos 60 até nossos dias. A ensaística discute as transformações de nosso mundo e as nossas dentro dele, como a própria transição do depoente, da esquerda católica para o marxismo-leninismo, o grande passo que o levaria para o Partido Comunista do Brasil, ainda na ilegalidade e, já comunista, sua presença no Parlamento, onde se consagraria politicamente, em três mandatos, um dos quais coincidindo com a Constituinte.

Esse transe, repito, não é apenas narrado, nem se restringe a mero arrolar de eventos. Aldo comenta e discute seus fundamentos filosóficos, como partícipe de uma longa e rica discussão doutrinária, que foi o debate de parte da esquerda brasileira, unificada na luta contra a ditadura, mas irremediavelmente dividida (melhor dizendo, pulverizada) em face dos meios de enfrentamento, que caminhou do quase colaboracionismo (travestido de niilismo) até a luta armada, e esta, por sua vez dividida (e de novo pulverizada) sob as mais diversas interpretações do caráter da ‘revolução brasileira’ e das táticas de resistência. Várias alternativas são perpassadas e várias influências abriram suas asas sobre nós, como os feitos da revolução cubana (‘foco guerrilheiro’), o guevarismo, a experiência chinesa (‘guerra popular prolongada’) e a acomodação soprada pelos ventos que vinham da então poderosa URSS e de seu tentacular PCUS, de notória influência sobre o pensamento comunista brasileiro. Antes de Araguaia e da resistência urbana, ainda em Montevidéu, Aldo, com Neiva Moreira, Max da Costa Santos e Betinho, reunia-se em torno de Leonel Brizola. O objetivo comum era ‘liquidar o regime militar pela via revolucionária’.

A derrota das diversas tentativas de resistência armada, levando consigo tantos e tantos jovens sonhadores, abriu caminho para a denúncia da repressão, da tortura e do assassinato dos militantes de esquerda, trazendo a classe-média para a reivindicação, nas ruas, da restauração democrática.  Ao cabo de muitos anos, a luta pela Anistia e derrota do pleito pelas diretas-já foram o aríete que implodiu o Colégio Eleitoral montado pela ditadura para eleger seu delfim.  A eleição de Tancredo Neves, o candidato das oposições, levaria ao Planalto o presidente e líder do partido da ditadura, José Sarney, com a responsabilidade de, governando com o passado, assegurar a transição vigiada, com um pé no freio da História.  A História é assim mesmo, cerzida de injunções.

Tudo isso para dizer que antes de tudo festejo a iniciativa memorial de Aldo Arantes, que contribui, com a indicação de fatos e o exercício da interpretação, para deitar luzes sobre a inconclusa historia de nossos últimos 50 anos.  Festejo sua coragem memorialista, e festejo a coragem do ensaísta.

A escrita memorialista, mais que um estilo literário, é testemunho, tanto mais rico quanto o depoimento traz a assinatura de um agente do processo histórico. Aldo não se apresenta como historiador mais ou menos distanciado dos fatos e eventos que registra, revela ou explica. Seu texto está comprometido pela vida. É ator e tem muito o que contar, quase sempre a revelar o que fez, sua marca como homem de ação.  Assim, acabamos de ler uma versão apaixonada, viva e vivida, uma existência compartilhada de sonhos e frustrações; dores e alegrias; derrotas e vitórias. Mas nessa saga, na história de Aldo, não se registram desistência ou recuo, senão renúncia à individualidade e aos projetos pessoais para os quais fomos programados pela nossa origem de classe; não, no seu caso o que sobreleva é a doação à causa, quase sempre ao preço da dor: tão-só o avançar, mesmo quando as ‘circunstâncias’ diziam que a guerra estava perdida, e o ‘bom-senso’ aconselhava a conformação com o ‘fato consumado’. Hoje, sabemos de que lado estava o progresso histórico; mas naqueles idos sofridos o simples resistir já era uma temeridade.

O revolucionário – aquele frágil ser humano que intenta apressar o parto da história – jamais será um pragmático – o modelo decantado do ‘homem moderno’ – pois a tarefa com que se escolheu, e eis a experiência de Aldo, fazendo-se líder e personagem, foi a de demonstrar que a construção de uma sociedade de iguais não é uma pura utopia. Projeto concreto, objetivo, e, portanto, factível, é  obra do homem que se rebela contra o destino traçado pela classe dominante e resolve ele próprio montar as peças da História.  Porque o  homem é sempre agente da História e sempre pode escolher-se, pois será sempre livre para optar. Se não lhe é dado escolher as circunstâncias objetivas  nas quais deverá agir (circunstâncias de tempo e meio), cabe-lhe, personagem que dita seu próprio script,  escolher o papel a desempenhar nelas: aí se separam o niilista, o conservador e o revolucionário. Neste sentido, o depoimento que acabamos de ler, sendo a história de Aldo Arantes,  é  a história de suas escolhas. Optando, escolhendo e escolhendo-se diante das circunstâncias quase sempre adversas (isto é, fazendo-se), Aldo  fazia o seu caminho.  Caminhando.

A trajetória de Aldo, dos bancos escolares de Anápolis até o proscênio revolucionário, aqui narrada a partir de uma experiência individual,  é,  na realidade,  a experiência coletiva de uma geração que transitou do catolicismo para o marxismo-leninismo, do misticismo para o materialismo,  da política tradicional para a descoberta da luta de classes e sua opção, nela, pelos interesses dos oprimidos; revolucionária, essa juventude, cansada de esperar pela realização de um determinismo que lhe garantia a inevitabilidade do sonho, transitou das cidades para o campo e para o confronto armado, quase suicida, mas que abriu caminho para o esgotamento  da ditadura e a recuperação da democracia representativa, num processo lento e gradual (presentemente em vias de consolidação) conformado numa transação que entregou aos militares decaídos a faculdade de ditar as condições de restauração do poder civil, uma fórmula bem brasileira que ensejava ao poder militar derrotado projetar-se no poder popular vitorioso.

Talvez aí esteja a explicação de não havermos, até hoje, mesmo ganhando três eleições presidenciais sucessivas, conseguido alterar a Anistia ditada pelos militares para preservar a impunidade de seus agentes, e eis um dos temas tratados por Aldo. Certamente aí está a explicação para o fato de, passados tantos anos, ainda não havermos conseguido punir um só dos militares golpistas, um só dos torturadores, um só dos assassinos. As Clarisses e as Lúcias continuam buscando os corpos de seus Herzogs e de seus Mários, de seus maridos e de seus pais. Somente agora, passados 29 anos do fim da ditadura (tendo como referência 1984 com a implosão do Colégio Eleitoral) é que foi possível construir, no governo federal, uma correlação de forças possibilitadora de uma Comissão da Verdade, ainda que tímida em seus primeiros e lentos fazeres.

Conosco transita o intelectual inquieto em crise com o catolicismo e descrente dos fundamentos da aliança com a burguesia nacional como garantidora da construção pacífica de uma revolução socialista que seria implantada com a ajuda de sargentos revolucionários e oficiais nacionalistas.

Aqui conhecemos Aldo, jovem líder secundarista; aqui o encontramos como líder universitário e mais tarde como presidente da União Nacional dos Estudantes – foi quando o conheci, para tornar-me dele amigo pelo resto da vida – liderando uma das mais brilhantes diretorias dessa entidade em período dos mais ricos de nossa História recente. Foram de seu tempo a renúncia de Jânio, a Cadeia da Legalidade liderada por Leonel Brizola e o Parlamentarismo de conveniência, a sustentação do governo João Goulart, a defesa de Cuba, a greve estudantil nacional pela reforma universitária, a UNE-Volante, o CPC da UNE, os ensaios da aliança operário-estudantil-camponesa, as Ligas Camponesas de Francisco Julião, a Frente Parlamentar Nacionalista, os ensaios e seminários do Instituto Superior de Estudos Brasileiros-ISEB, a Bossa Nova e Cinco Vezes Favela abrindo caminho para o Cinema Novo. Eram os tempos da Civilização Brasileira e de Ênio da Silveira. Era a preparação do personagem.

Naquela então contemplávamos o futuro com intimidade, quase a tocá-lo com nossos dedos. E era um futuro cheio de luz, pois feito de liberdade e igualdade. Foi à construção desse futuro que Aldo Arantes – eis o testemunho dessas memórias – dedicou sua vida. Quando a ditadura destruiu nossos sonhos, Aldo dedica a vida a combatê-la. Vitorioso com a redemocratização pela qual tanto lutou, volta-se para a construção dos sonhos dos anos 60.

 Ao fim e ao cabo peço licença ao Aldo e ao leitor para umas poucas linhas sobre uma grande mulher, presente nestas Memórias, que traiu seus interesses de classe para ficar ao lado dos humilhados e ofendidos. Conheci Dodora – e desde então devoto-lhe admiração –  nos meus tempo de UNE, ela namorada de Aldo, líder de esquerda na PUC-Rio, na JUC e na AP e revolucionária até hoje. Nos momentos de estresse, e não foram poucos, sua serenidade era nosso socorro. Na resistência, não foi apenas a companheira de Aldo: foi sempre uma líder. (RA)

 


* “A mudança mais ou menos lenta das ‘condições econômicas’ coloca a sociedade, periodicamente, diante da necessidade de, mais ou menos rapidamente, modificar suas instituições. Essa mudança jamais ocorre ´por si só`: ela  exige  a intervenção dos homens que são incumbidos dessa enorme tarefa pela sociedade.  Chamam-se grandes homens aqueles  mais aptos que outros para superar esse desafio”.

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