Carta aos candidatos à presidência da República da Academia Nacional de Engenharia

Em carta aos candidatos à presidência da República a Academia Nacional de Engenharia analisa e pontua as medidas fudamentais para a retomada do desenvolvimento.

ANE – Academia Nacional de Engenharia, em luta permanente pelo desenvolvimento tecnológico eficiente.

O maior problema que o futuro Presidente terá que enfrentar

O maior problema do próximo Presidente

Não restam dúvidas que o próximo presidente terá uma agenda plena de problemas, diante do atual quadro político-econômico-administrativo do Brasil. Vão da corrupção ao tamanho da máquina do estado, da segurança ao ensino, da justiça à saúde. No entanto, o pífio desenvolvimento econômico talvez seja o mais grave problema a ser enfrentado, porque afeta a todos. Crescimento econômico será o único caminho para a melhoria de qualidade de vida dos brasileiros.

Um índice de crescimento que não espelha a realidade

O índice normalmente usado para medir o crescimento econômico de um país é o PIB, que está longe de ser fidedigno porque soma tudo que foi produzido no país, sem subtrair a renda enviada ao exterior pelo uso de fatores de produção estrangeiros (engenharia). Ou seja, grande parcela do valor que foi produzido aqui será usufruído em outros países, apesar de serem computados como crescimento em nosso PIB. Para agravar ainda mais, nossa base industrial é composta, em sua maioria, de indústrias estrangeiras que se instalaram no Brasil para usufruir de nosso mercado interno, sem intenções de exportação.

A falta de conteúdo nacional nos fatores de produção

Historicamente, houve uma época em que, por falta de capacidade nacional, era preferível permitir que indústrias estrangeiras se instalassem no país do que, simplesmente, importar o produto pronto. Realmente, essa solução era a mais rápida forma de aumentar o conteúdo nacional de produtos que a sociedade necessitava. No entanto, com o pagamento ao exterior pelo uso dos fatores de produção, que os economistas consideram uma commodity, mas que seriam melhor descritos como fatores de engenharia (tecnologia, máquinas, projeto, design etc.), perdemos grandes oportunidades de injetar esses recursos em nossa economia para fortalecer a nossa engenharia e tentar expandir nossa produção para o mercado externo. Em resumo, fazer crescer a economia.

O conteúdo de engenharia de um produto depende do grau tecnológico do produto

O exemplo mais gritante da participação da engenharia em um produto foi um estudo feito pela Nokia que chegou à conclusão que a manufatura do celular N95 correspondia a apenas 2% do preço de venda antes dos impostos. Ou seja, não basta fabricar localmente, tem que ser com engenharia nacional pois é nela que está o maior valor agregado. Mesmo em produtos sem tecnologia moderna, como a indústria de calçados, um estudo feito na Itália mostrou que o design, a logística, o controle de qualidade e a administração correspondem à metade do preço de venda.

A solução – O desenvolvimento através da engenharia

Existem várias teorias sobre como melhorar a qualidade de vida e todas demandam recursos e engenharia. As manipulações de índices econômicos passam longe de constituir uma base da solução para o crescimento do país. É preciso fazer crescer a eficiência da engenharia no principal pilar da produção agrícola e industrial, da construção de escolas, de hospitais, de residências, de usinas de geração de energia, de equipamentos para todo tipo de produção e serviços etc. A engenharia está em todas as atividades da economia.

Desde a revolução industrial o mundo viu a responsabilidade sobre o desenvolvimento de um país se deslocar da agricultura para as atividades de engenharia. Primeiramente centrada em produção de máquinas e cada vez mais, com os tempos modernos, transferida para as áreas de projetos na medida em que a tecnologia passou a permitir o uso de computação, automação e controle.

Nossos economistas sabem da importância da engenharia. E embora as atividades de indústria e construção civil sejam responsáveis por cerca de 30% do PIB (como na maioria dos países), as demais atividades de serviços, responsáveis por 60% do PIB, seriam muito reduzidas sem a injeção de recursos provenientes da produção que se apoia na engenharia.

A geração de renda e os componentes do PIB

A geração de renda per capita nas atividades industriais é muito maior que nas outras atividades. No setor de serviços, para cada 1% da força total de trabalho aplicada, geramos 1% do PIB. Na agropecuária, a mesma quantidade de pessoas gera apenas cerca de 0,3% do PIB, enquanto que na indústria essa mesma quantidade de 1% da força total de trabalho gera 2% do PIB e poderia ser maior se tivéssemos mais indústrias de alta tecnologia.

O Brasil não adota uma política tecnológica similar à dos melhores exemplos mundiais.

Embora existam exemplos de desenvolvimento econômico como Japão e Coréia do Sul e, mais recentemente, China, com desenvolvimento centrado em engenharia autônoma, o Brasil, apesar de possuir vasto mercado interno, permanece um mero hospedeiro de empresas e importa engenharia e máquinas. Pura falta de visão estratégica de nossos governantes.

Valor agregado nos produtos de exportação e importados

Enquanto em nossa lista de importação os maiores valores estejam concentrados em produtos químicos, farmacêuticos e maquinários industriais com altos valores agregados (conhecimento – engenharia), em nossa lista de exportações os itens de maior peso são produtos alimentícios e minerais, de baixo valor agregado. A grosso modo, podemos dizer que precisamos de 6 a 10 trabalhadores da agropecuária e/ou da mineração para produzir o mesmo valor que um trabalhador de um setor de alta tecnologia. Não é de admirar que tenhamos uma renda per capita tão menor que os países com mais indústrias tecnológicas.

Isso pode dar a falsa impressão que nossos trabalhadores ou nossas empresas sejam menos eficientes que os de outros países, o que não é verdade. Estamos comparando trabalhos diferentes e empresas sobre um regime fiscal e burocrático diversos. Em trabalhos de mesmo nível tecnológico, trabalhadores brasileiros que são enviados ao exterior para cursos de transferência de tecnologia, se mostram tão eficientes quanto os nativos. Se nossos trabalhadores da área tecnológica ou nossas empresas fossem menos eficientes, não haveria empresas tecnológicas brasileiras com destaque no mercado internacional. Seja empresa de alta tecnologia, como a EMBRAER, ou de média tecnologia, como a WEG Motores Elétricos.

O que falta para termos desenvolvimento baseado na produção

A questão é, portanto, porque não temos mais empresas como as citadas? Principalmente empresas de alta tecnologia, que tenham produtos com mais inteligência (engenharia) e que tornam o valor final da produção até 3 vezes maior por trabalhador? A resposta é que todas as políticas de desenvolvimento da indústria nacional têm sido ineficientes e não existe uma política de desenvolvimento da engenharia nacional. As pesquisas aqui desenvolvidas, na maioria, não são voltadas à aplicação nas indústrias nacionais.

Em termos de suporte à indústria nacional, o Brasil é classificado pelo Fórum Econômico Mundial como o 81o lugar em competitividade. Não confundir competitividade do mercado com eficiência do trabalhador. Dos doze pilares usados para medir a competitividade de um país, onze são dependentes de ações governamentais. A saber: 1 – Instituições, 2 – infraestrutura, 3 – ambiente macroeconômico, 4 – saúde e educação primária, 5 – educação superior e treinamento, 6 – eficiência do mercado de bens, 7 – eficiência do mercado de trabalho, 8 – desenvolvimento do mercado financeiro, 9 – prontidão tecnológica, 10 – mercado interno, 11 – sofisticação nos negócios e 12 – inovação.

A única vantagem que temos sobre a maioria dos outros países é o pilar 10 – tamanho do mercado interno. Em compensação, nossa pontuação mais baixa é no pilar de inovação. Logo no Brasil, onde todos se orgulham de ser criativos, não existem mecanismos eficientes para que essa criatividade chegue à produção.

Especificamente no pilar de ensino superior, um número que demonstra claramente o pouco caso com a engenharia brasileira é que formamos 2,93 engenheiros para cada 10.000 habitantes, índice muito inferior ao da Alemanha, por exemplo, que forma 15,52 engenheiros para cada 10.000 habitantes. Mesmo países ainda não desenvolvidos tem índices bem melhores, como o México, que forma 14,27 enquanto a Grécia forma 8,01. Esses últimos são países que estão lutando para ter uma população preparada para um futuro mais tecnológico. Terão, certamente, mais chances de crescimento futuro do que nós.

Quem pode ajudar a montar uma política de desenvolvimento tecnológico

Conforme dito inicialmente, muito precisa ser feito pelo futuro de nosso país. Aos moldes da National Academy of Engineering, dos E.U.A. que assessora o Governo daquele país, a ANE foi criada com o firme propósito de reunir os mais proeminentes nomes de cada área da engenharia, não apenas para prestar-lhes homenagem, mas para formar um grupo que seja capaz de ajudar o país, de forma voluntária, a galgar patamares mais elevados e evitar o sistemático desperdício de dinheiro e conhecimento. Desperdício que ocorre quando é contratado no exterior o que pode ser feito no país. Nós, da ANE, estamos comprometidos a opinar e ajudar no estabelecimento de políticas que sejam eficazes no desenvolvimento econômico nacional. Essa é uma dívida de todos nós para com o país.

A grandeza de uma nação e seu desenvolvimento econômico são inseparáveis da grandeza tecnológica, porque esta significa autonomia e independência.

A primeira regra de qualquer tecnologia utilizada nos negócios é que a automação aplicada a uma operação eficiente aumentará a eficiência. A segunda é que a automação aplicada a uma operação ineficiente aumentará a ineficiência.(Bill Gates)

Não basta tentar resolver, isoladamente, os fatores que interferem no desenvolvimento, tem que haver uma atuação coordenada para melhorar a eficiência total.

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