Não foi Chavez nem Marx: Orson Welles já disse tudo

Cena de “A dama de Shangai”, de Orson Welles. O filme lembra o ambiente político do Brasil. (Reprodução)

por: Tarso Genro

É tempo de recordar o filme de Orson Welles, “Dama de Shangai”, em que Michael O’Hara – o próprio Welles – é um marinheiro contratado para pilotar o iate de Arthur Bannister, marido da bela Elsa, representada nada menos do que por Rita Hayworth. O’Hara – o marinheiro – acaba sendo parte de uma trama escabrosa, envolvendo uma morte forjada para recebimento de seguro de vida, assassinatos, jogos obscuros e simulações, tisnadas por paixões reais e fictícias. Cresce, assim, um inevitável mal-estar do personagem de Welles, perdidamente apaixonada por Elsa, mas obrigado a viver entre pessoas superficiais e vulgares, que ele despreza, para ficar perto da amada fatal.

Mais do que discorrer sobre o drama de um roteiro “noir”, apoiado na vida de certos grupos ricos e criminosos – que não raro chegam a se apropriar do Estado e derrubar Governos – o filme lembra o ambiente político do Brasil, da “greve-locaute” dos caminhoneiros. E remete também para uma cena impressionante do filme: aquela em que Welles-O’Hara se aproxima do ricaço Bannister, sentado ao lado da maravilhosa Elsa, que tenta lhe humilhar. É o momento que ele, O’Hara, oferece como resposta uma pergunta e também uma estória, que casualmente invoca o Brasil dos nossos dias.

A pergunta é mais ou menos a seguinte: -“é assim que vocês, ricaços, se divertem, comendo “marshmalows” e humilhando as pessoas?” A estória que O’Hara conta é a narrativa de uma pescaria de tubarões na Bahia da Guanabara, na qual a fisgada de um deles, espalha um filete de sangue que avermelha o mar revolto e desperta a voracidade daqueles gigantes da natureza. O mar azul se torna, assim, um mar de sangue e os tubarões enlouquecidos pelo encadeamento imemorial dos seus instintos, reagem como assassinos sem regras. Vale ali, no mercado da vida natural, a lei do mais forte, o dente mais afiado, a voracidade mais intensa e a maior propensão à morte ou à defesa da própria vida.

Esta guerra natural da sobrevivência é o avesso da democracia social capitalista, que parece cada vez mais improvável. O presidente Macron, numa entrevista” ao jornal “El Mundo” (18.O4), alertou aos imbecis de todo o planeta, sobre o perigo de “uma espécie de guerra civil européia, onde os egoísmos nacionais prevalecem sobre aquilo nos une”. O presidente Macri disse (Z.H. 09.05), ao combater as políticas de subsídios aos mais pobres como mero deslocamento de renda para dar de comer aos miseráveis: “jamais vocês voltarão a ser enganados, a ser levados a acreditar em soluções mágicas, a crer que aquilo que te dão pode ser permanente”.

O primeiro é um liberal inteligente e refinado, defendendo os interesses nacionais e de classe do seu país, no contexto da crise européia. O segundo, um repassador de notícias que os tubarões estão chegando mais e devem ser prestigiados; o primeiro diz que as classes dominantes internas não podem tirar tudo dos pobres e dos trabalhadores em geral, para que a União consiga funcionar; o segundo informa que o seu povo está disponível para não comer, por isso ele se opõe à ilusão de que comer pode ser “permanente”.

Independentemente de que, aqui no Brasil, a movimentação dos caminhoneiros – proprietários dos caminhões, empresários, empregados ou informais – seja do mesmo contingente que derrubou Dilma e liquidou as políticas setoriais de Lula, para o transporte de carga – independentemente disso – alguém deveria dizer a eles, que eles são apenas pequenos tubarões, no mar avermelhado de miséria e dor que o governo Temer está aumentando, de forma acelerada. E que no Brasil de Temer os “direitos” deles são secundários, em relação aos direitos dos banqueiros e rentistas em geral, porque o projeto de Temer não é sequer o de Macron, mas o de Macri: o projeto que tenta manipular, não apenas os imbecis de toda a ordem, mas também os pobres de todo o gênero.

(*) Tarso Genro foi Governador do Estado do Rio Grande do Sul, prefeito de Porto Alegre, Ministro da Justiça, Ministro da Educação e Ministro das Relações Institucionais do Brasil.

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