NELSON 70 ANOS

Outubro de 1998. A grama verde do campus em primeiro plano.

Ao fundo, o prédio da biblioteca identifica sua história, sua forte relação com o lugar. Lá está ele, olhando ao redor em sua habitual elegância e cortesia, pronto para mais um take, desta vez personagem. Traze-lo na UnB, após muitos anos, era um acontecimento especial para mim, para ele mais do que isso. Nos seus 70 anos de vida as homenagens se davam quase ininterruptas, desde o Festival de Cinema de Gramado, há dois meses atrás, e agora no Festival de Brasília. Tirá-lo de um debate no Hotel Nacional e convidá-lo a dar um passeio na universidade não foi difícil. Muito menos fazê-lo entrar na kombi da TV, repleta de equipamentos, cabos, fitas, pastas, papéis, material de maquiagem onde, ali mesmo, começamos a registrar sua presença, já desevolvendo a conversa, até chegar no campus.

Nada com ele é difícil, menos evitar a fascinação que exerce, no contato simples, como se fosse um sujeito qualquer, sem Vidas Secas, sem Fome de Amor e sem Memórias do Cárcere. Ia receber nesta noite o prêmio Candango, com direito a parabéns pra você, bolo e champagne. E ser aplaudido de pé por centenas de amigos, artistas e personalidades. Uma celebração em que Brasília iria se oferecer, transformando-se em Rio 40 Graus. Mas antes, uma chuva pequena começa a cair sobre uma outra Brasília a lembrar. Com os passos sobre a grama já molhada o caminho da memória leva aos anos 60 – a criação da UnB e do primeiro curso de cinema, a ditadura e os ideais de uma geração de Darcy Ribeiro e outros companheiros. O cineasta fala e ensina, aponta lugares, lembra pessoas e vivências, dirige nossa equipe em seu roteiro de memórias. Conta sua história, um pouco da história de um Brasil nem muito recente nem muito antigo, que ainda não saiu de sua cabeça nem de seus olhos, qual duas lentes a girar devagar, a rodar e a imprimir novas e velhas imagens. Ao final das filmagens, abrigados no prédio da antiga faculdade de cinema, passamos a contemplar a chuva. Através dela a visão dos prédios da universidade no imenso manto verde em contraste com a terra vermelha. Ao fundo o lago de Brasília e o horizonte, com um pedaço de céu se abrindo e preparando o crepúsculo. O presente e o passado se fundiam na chuva, naquela tarde, naquela tela, onde na verdade assistíamos a mais um filme de Nelson Pereira dos Santos.

Dermeval Netto

PS: Com sua morte, nos quase 90 anos, neste abril de 2018, morre junto o melhor cinema brasileiro.

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