Perda irreparável

Um manifesto lançado em meados de dezembro por um pequeno grupo de pessoas preocupadas com o destino do País, sob o título “Eleição sem Lula É Fraude” , havia alcançado, às vésperas do julgamento pelo TRF4 do recurso interposto pela defesa do ex-presidente, 200 mil assinaturas (no momento em que escrevo, esse número está próximo de 230 mil). Entre os subscritores contam-se muitos nomes ilustres, alguns deles de grande repercussão popular.
No Brasil, escritores como Raduan Nassar e Milton Hatoum, artistas de variados ramos, como Chico Buarque, Caetano Veloso, Sônia Braga, Beth Carvalho, Wagner Moura, Kleber Mendonça e Ernesto Neto, bem como acadêmicos e cientistas de renome nacional e internacional firmaram a petição. Fora do País, a lista é igualmente ampla e representativa. De Noam Chomsky a Costa Gavras, passando por Oliver Stone e Danny Glover, personalidades reconhecidas como de primeira grandeza aderiram ao documento.
No mundo político, ex-presidentes sul-americanos (Cristina Kirchner, José Mujica, Ernesto Samper e Rafael Correa), bem como antigos primeiros-ministros de países europeus (Massimo D’Alema, José Luis Zapatero) expressaram com suas assinaturas o repúdio à tentativa de barrar a candidatura do ex-presidente Lula. Outras figuras importantes da política europeia, como Jean-Luc Mélenchon, da França, e Yanis Varoufakis, da Grécia, subscreveram o manifesto.
Entre nós, todos os governadores do campo progressista e três dos potenciais candidatos à Presidência (Manuela D’Avila, Guilherme Boulos e Aldo Rebelo) se juntaram a inúmeros parlamentares e militantes na denúncia ao complô para barrar o caminho de volta de Lula ao Palácio do Planalto. A mesma atitude foi tomada por lideranças sindicais (brasileiras e mundiais) e dos movimentos de afrodescendentes e de mulheres. A relação dos que expressaram sua inconformidade com o processo político-policial-judiciário a que o ex-presidente está sendo submetido é imensa e variada, muito além do espaço deste artigo.
Dois casos, entretanto, são emblemáticos e merecem referência, por nos remeterem a outras situações que, metaforicamente, se estão reproduzindo na presente agonia. Trata-se de Daniel Ellsberg, o principal responsável pelo vazamento dos célebres Pentagon Papers e os filhos de Julius e Ethel Rosenberg, o casal levado à cadeira elétrica nos Estados Unidos, na época do macarthismo.
No primeiro caso, a “metáfora” tem a ver com a desconstrução da narrativa falsa produzida pelo governo norte-americano em torno da Guerra do Vietnã, desde a suposta ameaça de expansão chinesa até o mito da defesa da democracia e o ocultamento dos bombardeios a outros países da antiga Indochina francesa. Foi a publicidade dada aos papéis secretos do Pentágono, a que Ellsberg teve acesso como pesquisador da Rand Corporation (um think tank que trabalhava em estreita cooperação com o Departamento de Defesa), que de fato marcou o “início do fim” da intervenção militar americana naquele país do Sudeste Asiático.
Evidentemente, os protestos de jovens, movidos por idealismo e pelo temor de uma morte inglória, haviam começado antes e foram apoiados por intelectuais e ativistas (entre os quais, Noam Chomsky), nos próprios EUA e no resto do mundo. Mas foram os “papéis do Pentágono” que desvendaram para a elite com influência sobre os tomadores de decisão o rol de mentiras sobre as quais repousava a versão oficial de Washington sobre a guerra.
Mais de três anos foram necessários para que o conflito chegasse ao ponto final, com a derrocada militar das tropas americanas e o abandono forçado da tese kissengeriana, abraçada por Richard Nixon, sobre uma imaginária e enganosa “paz com honra”. O desmonte da falsa narrativa, graças à corajosa decisão de Daniel Ellsberg, foi, entretanto, um fator decisivo para encurtar o que parecia ser uma guerra sem fim e sem propósito.
Até que ponto se pode esperar que algum Daniel Ellsberg denuncie a trama diabólica para barrar o ideal de um país justo e independente, representado pelos governos petistas (apesar dos eventuais erros que possam haver sido cometidos) é uma questão em aberto. E, como o tempo urge, quando isso ocorrer talvez seja tarde demais para impedir que uma “eleição sem Lula” lance o País em um caos social e político de difícil retorno e em um longo período de obscuridade, que nos fará lembrar dos piores tempos da ditadura.
Essa reflexão me leva à outra metáfora, relativa à “perda irreparável”, simbolizada pela execução na cadeira elétrica do casal Rosenberg, acusado de passar segredos relativos a armas nucleares à União Soviética. O caso provocou, à época, comoção mundial, em razão da insuficiência das provas e à evidente “armação” das autoridades americanas para incriminar o casal.
Mesmo historiadores revisionistas, que admitem a simpatia e até alguma cooperação com Moscou, concordam que a pena capital foi exagerada e injusta e que a segurança dos Estados Unidos nunca esteve em risco. Obviamente, o presidente Lula não será fisicamente executado e, se um mínimo de bom senso prevalecer entre os membros da mais alta Corte, nem mesmo preso.
Mas o objetivo de “executá-lo” politicamente é tão transparente que nos faz temer pela sorte da democracia brasileira. Normalmente, os erros judiciários, no mundo real (como no célebre Caso Dreifus) ou na ficção (como nos Irmãos Karamazov, de Dostoievski), atingem um ou dois indivíduos e, indiretamente, seus familiares e outras pessoas próximas, ainda que possam ter repercussão nacional e internacional.
No presente caso, entretanto, o ente atingido, além do cidadão Luiz Inácio Lula da Silva, é o próprio País. Se a trama para impedir que Lula concorra às próximas eleições for bem-sucedida, a democracia brasileira sofrerá uma “perda irreparável”.
Gerações inteiras serão privadas de viver em uma sociedade mais justa e harmoniosa, em que negros e brancos, mulheres e homens (independentemente de preferências sexuais), bem como pessoas com diferentes crenças religiosas ou filosóficas, possam usufruir, em igualdade de condições, dos frutos do progresso, ao mesmo tempo que se orgulhem de viver em um país altivo e soberano, empenhado na Paz e na prosperidade de todas as nações.
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