MANIFESTO AOS INTELECTUAIS EM DEFESA DA PRODUÇÃO DO SABER

O Brasil vive um dos momentos mais absurdos e chocantes da sua história desde a Proclamação da República; sacudido por febril agitação, está dividido no ódio e na intolerância com o surgimento de preconceitos, racismo e xenofobia que a consciência social imaginava sepultados.

O modo irresponsável como a Imprensa convencional brasileira trata as questões sociais, leva a um incremento da descrença em soluções democráticas e à incapacidade de exame crítico da política. É urgente que a intelectualidade brasileira se manifeste diante dos gravíssimos fatos que estamos presenciando com incrível apatia mental.

O Estado de Exceção vigente promove ataques à sociedade com apoio dos holofotes midiáticos em diversos planos. O desrespeito à Constituição é flagrante, para atender aos interesses do ‘’mercado’ precarizando o trabalho e tentando impedir a justa aposentadoria do trabalhador.

O avanço belicista é patrocinado pelo Poder Judiciário sob a conveniente máscara do combate à corrupção. Parcela ponderável dos operadores do Direito, usando linguagem kafkiana instrumentaliza os institutos da condução coercitiva, da prisão preventiva e da delação premiada para levar a cabo uma cruzada teológico-política paranóica sem precedentes, visando a alterar a correlação de forças da política nacional a favor do conservadorismo elitista.

O ataque à produção do conhecimento como instrumento crítico teve inicio com a proposta da Escola Sem Partido e prossegue com a mais abusiva invasão de várias universidades do País. O Exército togado segue rumo previsto, tendo policiais federais como executores da tarefa de invadir os espaços de liberdade das universidades.

O ataque à UFSC levou o reitor ao suicídio, sendo o episódio mais recente o da UFMG, usando como álibi supostos desvios de dinheiro na construção do Memorial da Anistia. Não por acaso, o pensamento fascista ataca nesse ponto, pois é exatamente a memória na luta contra a ditadura entre outros componentes do Saber que pretendem destruir.

A moralidade hipócrita tenta desqualificar o gigantesco trabalho das universidades públicas brasileiras, quebrando sua autonomia constitucional e negando o justo mérito às fontes de produção do Saber que permitem ao Brasil avançar em Ciência e Tecnologia, pesquisa e extensão.

Os fatos se sucedem com despótica evidência sem que a consciência intelectual brasileira tome posição, o mais incrível dessa atuação é que tais acontecimentos são acobertados pelo bordão “lava jato”, escondendo debaixo do fetichismo da limpeza a sujeira antidemocrática de tais procedimentos.

A luta pela democracia inclui romper o criminoso silêncio diante da evidência que não pode ser negada. É bom lembrar que a Viena dos anos 1920, com sua extraordinária efervescência intelectual, negou a proximidade evidente do nazismo. Não se trata aqui de combater o Direito, mas de não admitir sua prática invertida pelos meios de comunicação, favorecendo a injustiça e comprometendo os mais elementares princípios democráticos.

Vaton Miranda Leitão

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