O ciclo do PT no poder se encerrou

Guilherme Boulos deu entrevista ao Valor:

Valor: Como será a esquerda pós-Lula?

Guilherme Boulos: Lula é a maior liderança social e política do país, fez o governo mais popular da história da nova República e teve acertos e erros. Mas não é possível achar que 2018 é 2002. O país está afundado em uma recessão enorme, está polarizado, a economia encolheu e a margem de manobra para uma composição social se reduziu muito. O desafio é pensar um programa que não seja o de conciliação, mas de enfrentamento e que bote o dedo na ferida de problemas estruturais.

Valor: Uma disputa eleitoral sem Lula une a esquerda ou a fragmenta ainda mais?

Boulos: Existe a compreensão do direito do Lula de ser candidato como uma questão democrática. Não é de convergência programática, mas de não deixar que o Judiciário defina o processo eleitoral no tapetão. A esquerda tem diversidade. A intolerância e a unidade artificial nós deixamos para a direita. Eles são bons nisso. Defendo que a esquerda se apresente em 2018 com projeto de enfrentamento, sem alianças com golpistas. No primeiro turno é muito improvável ter candidatura única. Já se lançaram pré-candidaturas.

Valor: Quem são os candidatos que o senhor considera nesse campo? A Marina é de esquerda?

Boulos: Não. Ela atravessou o rubicão quando apoiou Aécio Neves no segundo turno em 2014 e, em especial, quando apoiou o golpe [impeachment] em 2016. Marina foi para um caminho sem volta. Mas o cenário ainda está indefinido. O TRF-4 antecipou o julgamento para janeiro, o que é um escândalo, passou por cima de todos os ritos processuais e politizou.

Valor: Setores da esquerda apostam que a exclusão de Lula vai mobilizar as ruas contra o impedimento. O senhor vê essa disposição?

Boulos: Poucos foram às ruas para barrar uma reforma trabalhista que faz o país andar 80 anos para trás. Poucos foram às ruas para barrar uma emenda constitucional que congela investimentos públicos pelos próximos 20 anos. É um momento de perplexidade, de dificuldade. Por mais que haja uma grande insatisfação com o status quo, que se expressa na ampla rejeição do governo Temer e do Congresso, isso ainda não se traduziu em mobilização popular.

(…)

Valor: Mas o tempo da mobilização da sociedade é mais longo que o da política…

Boulos: Mais ou menos. Veja o que aconteceu em países vizinhos, como no Equador, Bolívia, que chamaram Assembleias Constituintes e colocaram o povo no jogo. Sem isso, a esquerda nunca vai conseguir fazer um programa de esquerda e vai sempre ficar refém do PMDB. O PMDB nunca ganhou eleição presidencial e sempre esteve por trás de todos os governos. A única forma de se livrar disso é colocando o povo no tabuleiro.

Valor: No meio dessa apatia a que assistimos?

Boulos : A esquerda não pode ficar restrita a um projeto eleitoral. Temos um ciclo se encerrando, o ciclo de um estratégia que foi capitaneada hegemonicamente pelo PT, inclusive nos seus governos, de que era possível ter avanços sem enfrentar a estrutura arcaica de privilégios. Nos governos Lula se teve avanço porque havia um crescimento médio de 4%. Com manejo orçamentário se fazia política social sem tirar nada do andar de cima. Quando a crise vem, isso não é mais possível. A esquerda tem de pensar rumos, um novo projeto, nova perspectiva. Essa perspectiva não tem que ser pensada para a próxima eleição apenas, mas para os próximos 10, 20, 30 anos.

Valor: O senhor é candidato à Presidência?

Boulos: Recebi convite do Psol, com quem tenho excelente relação e respeito. O partido esteve conosco no enfrentamento do golpe e tem posições coerentes, mas neste momento o meu foco e do MTST está em enfrentamentos decisivos, por moradia digna e na resistência para preservar direitos, na luta contra a reforma da Previdência. Há também uma pauta democrática importante que é defender o direito de Lula ser candidato.

Valor: E se Lula for candidato o senhor mantém a candidatura?

Boulos: É evidente que existem conversas, mas o foco está no processo de mobilização e resistência. 2018 deve ser definido em 2018. Manuela D’Ávila lançou sua pré-candidatura, Ciro lançou sua candidatura. Acho bastante legítimo que a esquerda tenha diversidade de posições e isso se expresse no processo eleitoral.

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